«Trilho dos moleiros e dos sonhos»
- 18 de nov. de 2018
- 4 min de leitura

O post de hoje não é uma crítica, uma resenha ou um artigo.
O post de hoje é um desabafo feliz de uma conversa ainda mais feliz sobre a força dos sonhos.
Parece difícil de acreditar, mas é verdade! Em Portugal ainda existem sonhos, em raros momentos eles ainda se concretizam, e de forma ainda mais rara (e quase milagrosa) eles materializam-se em património de grande valor e qualidade.
É, parece difícil de acreditar, mas acontece! E felizmente, para todos, acontece com uma raridade excecional que nos enche de orgulho, força e esperança! Acho que é disso que se trata este post… orgulho, força e esperança!
Numa das minhas recentes viagens por um dos concelhos que mais aprecio no nordeste transmontano, Torre de Moncorvo, o meu caminho cruzou com uma história de resistência e persistência que me mantém presa até hoje pela sua grandeza e beleza. Acho que no que toca a património e, sobretudo, à sua valorização, nunca uma história me tocou tanto e me fez sentir o peito a inflamar de orgulho como aconteceu com a «Rota dos Moinhos».

Confesso que a primeira vez que tive contacto com esta rota foi através de uma placa de sinalização que se encontra na entrada da pequena aldeia de Martim Tirado. Não entendi no imediato o seu alcance ou importância, mas reconheci-lhe imediatamente mérito. Numa aldeia, perdida no interior transmontano, onde a desertificação, o envelhecimento da população e a dureza do trabalho são os traços mais vincados do dia-a-dia alguém decidiu criar uma rota e dar-lhe espaço de destaque…pareceu-me logo um ato de coragem, suscitou a minha curiosidade e levou-me até ao Tiago Menino.
Ah o Tiago, é inteiramente um dos nossos, um sonhador persistente e um exemplo de paixão! Formado em Geografia e Ordenamento do Território, na FLUP, o Tiago reconheceu ainda em pequenino que nas raízes do lugar onde nasceu e cresceu existia um diamante em bruto à espera de ser lapidado. Ele não imaginava, talvez, que lhe caberia a si esse trabalho, mas tinha consciência de que ali tinha nascido um sonho que iria modelar a sua vida. Portador de uma humildade cativante e de um espírito perseverante, o Tiago aceitou conversar connosco e levou-nos, no sentindo literal, a trilhar uma rota que tem tanto de patrimonial como de memorial.

Logo para início de conversa interessou-nos saber como é que um geógrafo se debruçou e deu corpo a um projeto patrimonial como a Rota dos moinhos. Relembrando que a Geografia é uma ciência social que, entre muitas valências, auxilia no conhecimento e reordenamento do território e reconhecendo o problema de desertificação que a pequena região enfrentava, o Tiago explicou-nos que percebeu rapidamente que a rota seria um instrumento eficiente para trazer para a aldeia aquilo que lhe faltava, população, mas que só funcionaria se fosse o mais realista possível,
“a maneira de poder trazer aqui algumas pessoas era criar alguma atração, e para mim essa atração tem de ser o mais autêntica possível”
Assim, partindo de uma rota real, que outrora espelhou o meio de sustento de uma população que vivia do cultivo, moagem e venda de cereais, como o trigo, e socorrendo-se de um sonho que se converteu em certeza, o Tiago com o apoio do seu pai limpou e reabilitou cerca de 10km de um trilho que estava desacreditado e até parcialmente esquecido pela população. Durante meses a fio estes Anfitriões da rota dos Moinhos trabalharam afincadamente num projeto que a maioria considerava “algo irreal, algo impossível de acontecer” e ouviram muitas vezes comentários jocosos e irónicos. A certo momento da conversa o Tiago confessou-nos mesmo
“um dia estávamos [ eu e o meu pai] a trabalhar na limpeza do trilho e apareceu alguém perto de nós, começou-se a rir e disse-nos, muito sincero para nós, «epa, vocês sonham bastante não sonham?»”
Cá para nós, ainda bem que eles sonham bastante, ainda bem que o menino, pequenino do interior, um dia, no alto dos seus “dez anitos”, pensou “se eu gosto de andar por aqui de certeza que há mais pessoas que gostam também”. Este pensamento impulsionou o sonho, que modelou uma vida e que de tanto existir fez renascer um trilho fantástico que une num só caminho uma mostra impressionante de património natural, material e imaterial transmontano.

Este pensamento foi a fonte de uma paixão inesgotável que hoje se nota na luz do sorriso, na profundidade do olhar e na humildade vibrante da voz que brota do Tiago sempre que se fala neste projeto. Acho que qualquer pessoa que trilha aquela rota fica extasiada com a beleza natural do caminho, fica impactado com a dureza que aqueles quilómetros representam e fica envolvida com a paixão que o Tiago, o seu pai, e a mascote «bolinhas» dedicam ao projeto. Eu fiquei. Foram horas de muitas emoções, de muita descoberta e de muito orgulho. Foram horas de esperança renovada que começaram exatamente quando perguntei ao Tiago “o que é que esta rota te trouxe de mais gratificante?” e ele me respondeu, com a voz cheia de devoção,
“A mim? Ui…”
A partir dali nunca mais vi a rota com os mesmos olhos, a partir dali passei a vê-la com os olhos do coração e ela tornou-se tão mais gigante que se converteu neste post. É afinal os sonhos ainda existem e alguns sonhadores ainda os tornam reais.
“houve um amigo uma vez que me disse uma frase e fez-me pensar porque é real: Tudo aquilo que eu faço eu acredito, ponto! Se eu acredito é porque é verdade e quando assim é, vou até ao fim!”
Obrigado «rota dos Moinhos»! Obrigado Tiago Menino [Sr. José Manuel e Bolinhas]! Obrigado «trilho dos moleiros e dos sonhos»!

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