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Cultura Japonesa: Livro ilustrado dos Monstros e a Raposa

  • 4 de jun. de 2017
  • 5 min de leitura







As fábulas e lendas fazem há muito parte do folclore ocidental. Desde pequenos ouvimos lendas e fábulas que de história em história ajudam a formular o nosso carácter e funcionam como modelador de ações. Quase sempre a retratar situações que contêm uma moral ou um ensinamento, elas acompanham a nossa formação e evolução de intelecto, e com a mesma simplicidade tornam-se complexas e instrutivas. No entanto estas fábulas e lendas não são exclusivas do tradicionalismo ocidental, pautam também o imaginário Oriental, e é sobre esse imaginário que se formula este artigo.





Alargando os «biombos ocidentais» estas linhas partem de um estudo em torno do livro japonês do século XIX Kaibutsu Ehon ou O livro ilustrado dos monstros. Este livro contém vários monstros do folclore japonês, e acredita-se que tenha sido concebido para ser um livro de histórias para crianças, um pouco à semelhança do que acontece com as fábulas ocidentais. Do seu autor pouco se sabe, assim como do próprio livro, ainda assim é um livro rico em termos visuais, onde podemos facilmente apreciar a arte japonesa e a estética própria dessa época.




Este livro contém variadas fábulas e lendas, mas para estas linhas interessa fundamentalmente a figura da raposa, e a mitologia que em torno dela se desenvolve. Assim como na maioria das fabulas ocidentais, a raposa é representada no Japão como símbolo de inteligência, sabedoria e, de acordo com relatos contidos em várias lendas a seu respeito, são animais com poderes mágicos (místicos), sagrados ou amaldiçoados.


Em japonês raposa começou por ser denominada em tempos antigos por Kyuubi-No-Kitsune Kitsune, surgindo da onomatopeia do “kitsu”, que significa “o ganido da raposa”. Hoje em dia, os japoneses usam “kon-kon” ou “gon-gon” para designar a raposa, já que a onomatopeia “kitsu” acabou no desuso.



A kitsune é uma das personagens mais populares da mitologia japonesa, povoando diversas lendas. Quanto à sua origem, não há uma certeza, no entanto, alguns registros relatam que, a partir do século IV d.C, a convivência das raposas com os humanos no arquipélago japonês era corriqueira, e esse facto pode estar relacionado com a origem das lendas sobre a kitsune. Entretanto, as histórias que envolviam as kitsunes tornam-se amplamente relatadas em dois registros antigos: “Kojiki” (a mais antiga crônica do Japão, compilado em 712 d.C. (“Registro das Coisas Antigas”) e “Nihongi” (também chamado de “Nihon Shoki” e “Hihongi”), este segundo registro representa as “Crônicas do Japão”, compilado em 720 d.C. e contém parte da história “real” do Japão.




Geralmente as lendas sobre as kitsune englobam sabedoria, inteligência e sagacidade. Acredita-se que todas as kitsunes sejam fêmeas, já que recorrentemente as “histórias” a seu respeito as denominam com nomes femininos. As kitsunes em generalidade são mais fortes que os seres humanos e por isso tendem a agir com arrogância sempre que entram em contato com um, dizem que todas são dotadas com poderes incríveis, incluindo possessão, habilidade de cuspir fogo, manipular e surgir em sonhos, criar ilusões, dobrar o tempo e espaço, enlouquecer e até mesmo matar pessoas, sendo por isso invulneráveis aos ataques humanos, com a exceção dos monges budistas. No imaginário japonês consta que os sagrados monges budistas – possuidores da benção divina d’“O Choro da Kitsune” – podem exterminar uma kitsune má apenas com uma simples oração.


Mas falar neste imaginário sem exemplificar seria deixar os nossos biombos exatamente a meio do caminho, por isso para terminar estas breves linhas deixo-vos com duas variantes das lendas que se se formulam em torno da raposa e com a certeza de que esta viagem pela orientalidade não se cinge a este post.

Até Breve



Kitsune Tamamo-no-mae


A kitsune mais maldosa de todas, sem dúvidas, foi a Tamamo-no-Mae, que ao longo de sua existência conseguiu infiltrar-se nos tribunais imperiais da Índia, China e Japão, e causar tantos danos e mortes que fora considerada uma Criminosa Internacional, procurada em todo o continente Asiático. Essa criatura levou destruição ao rei da Índia, matando milhares de seus súditos antes de fugir para a China, onde foi responsável pela queda da dinastia Chou, para reaparecer, tempos depois, no Japão como uma cortesã do Imperador Konoe. A sua sabedoria e beleza encantavam o povo japonês, a corte Imperial e até mesmo o Imperador. Era considerada a mulher mais bela e inteligente do Japão. O Imperador Konoe apaixonou-se por ela e logo depois foi acometido por uma doença inexplicável. Médicos, Monges e até filósofos tentaram em vão descobrir a causa da enfermidade de Konoe. Quando o Imperador já dava sinais de que sua morte era certa, finalmente um astrólogo chamado Abe no Yasuchika descobriu que Tamamo-no-Mae era a causa da enfermidade. Yasuchika explicou que aquela linda rapariga era na verdade uma Kyuubi no Kitsune disfarçada, e que tinha o intuito de usurpar o trono de Konoe. Príncipe Hanzoku aterrorizado com a raposa de nove caudas. Obra de Utagawa Kuniyoshi 15 Assim que descoberta, o boato espalhou-se e Tamamo-no-Mae fugiu para as planícies da Nasu. Depois de muitas buscas em vão, o Imperador mandou chamar Kazusa-no-Suke e Miura-no-Sube, que eram os guerreiros mais poderosos do Império na época. Os guerreiros foram diversas vezes ludibriados na caçada, até que um dia, Tamamo-no-Mae apareceu em sonho para Miura e rogou para que ele poupasse sua vida, pois ela havia tido o mau presságio de que Miura a mataria no dia seguinte. Porém, sem nenhuma piedade, Miura recusou. Na manhã seguinte, finalmente os guerreiros conseguiram encurralar Tamamono-Mae na planície de Nasu. Justamente Miura foi quem a matou com uma flechada. O corpo da kitsune foi transformado em pedra e passou a ser chamado de Sessho-Seki “A pedra da matança”. Qualquer criatura viva que entrasse em contato com ela morria imediatamente. Tamamo-no-Mae tinha se transformado em Hoji, de tão poderoso que era o mal dessa raposa. O seu espírito assombrou a pedra por tempos, até que um dia, o Sagrado Monge budista Genno, parou para descansar debaixo da pedra e foi assombrado por Hoji. Ele recitou as orações sagradas de Buda e conseguiu finalmente exorcizar a pedra Sesso-Seki. Nos dias atuais, a província de Nasu tem como ponto turístico a planície onde dizem ser o local em que Tamamo-no-Mae morrera.


Ono e a Kitsune do Pântano´


Existe uma lenda de uma kitsune, considerada uma das mais antigas histórias a seu respeito. Porém, dizem tratar-se de uma lenda falsa, no entanto, qual a lenda que se pode afirmar verdadeira? Ainda mais por tratar-se de uma das lendas mais antigas sobre uma kitsune. Ono, um habitante de Mino, passou muito tempo ansiando encontrar uma mulher com a beleza que ele considerava ideal. Um dia, quando andava no pântano, encontrou uma linda mulher, logo se apaixonou e acabou casando-se com ela. Assim que nasceu seu filho, o homem resolveu criar um cachorrinho. O animal, no entanto, à medida que crescia ficava mais hostil com a esposa. Por diversas vezes ela implorava para que o marido o matasse, mas ele sempre se recusou por gostar imenso do animal. Um dia o cão atacou a raposa com tanta ferocidade que ela involuntariamente retornou a sua forma original de raposa e fugiu. Enquanto a raposa corria desesperada, Ono gritou para ela: “Tu podes ser uma raposa, mas és a mãe de meu filho e eu amo-te. Volta sempre que quiseres, tu serás sempre bem-vinda”. Assim, toda noite ela voltava para os braços de Ono. A kitsune retornava à noite como humana e de dia deixava a casa como raposa, ela foi apelidada de Kitsune, que em japonês clássico é “kitsu-ne” (venha e durma) e ki-tsune (venha sempre).

 
 
 

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